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Opinião: Jorginho vira esperança de mudança em uma Portuguesa reativa a correções

Relembre a "Barcelusa", time que marcou época na Série B de 2011

ge — Futebol · 2026-09-24T22:08:21.000Z

Relembre a "Barcelusa", time que marcou época na Série B de 2011

Jorginho está de volta à Portuguesa, agora como coordenador técnico. Como ponta-direita e meia, defendeu o clube entre 1984 e 1990, sendo vice-campeão paulista em 1985. Como treinador, comandou a equipe entre 2011 e 2012, sagrando-se campeão brasileiro da Série B em 2011, e teve uma segunda passagem em 2016.

Em campo, foi uma das gratas revelações das categorias de base e assumiu a titularidade sobretudo após a saída de Toquinho. Fora dele, foi o artífice da BarceLusa, um time que jogava por música e fez uma campanha histórica. Talvez o último grande time luso.

Como treinador, infelizmente tem na bagagem dois momentos negativos: a queda no Paulistão de 2012, logo após o apoteótico título da Série B em 2011, e uma passagem durante a Série C de 2016, que acabou em rebaixamento para a equipe do Canindé.

Há que se reconhecer a lambança realizada pela diretoria em 2012, cujo ápice foi a desonestidade cometida com o goleiro Wéverton, da qual Jorginho foi mais a reboque do que responsável. E que, em 2016, havia crise política e salários atrasados.

Fato é que Jorginho volta em 2026 para um cenário totalmente diferente. Seja pela função que exercerá, seja pela Portuguesa que encontrará. O clube que o ídolo tão bem conhece agora é SAF e o cargo de coordenador técnico é inédito na carreira dele.

Não há como analisar essa chegada com base no que Jorginho já realizou na Lusa. Afinal, atuou em duas funções totalmente distintas da atual: jogador e treinador. Os sucessos e os fracassos foram em posições nada parecidas com a missão de agora.

O que mais pesa na trajetória de Jorginho na Portuguesa é o conhecimento do que é o clube, da grandeza aos desafios, da importância de um acesso, do que é ou não perfil, de quem é a torcida, como se comporta, qual a identidade, as características, a essência.

Nesse ponto, a SAF pode suprir uma carência. É quase consenso entre quem torce e cobre o dia a dia do clube que a gestão rubro-verde está quase que totalmente descolada da identidade da Lusa. Falta quem conheça. E é inegável que Jorginho conhece.

Um conhecimento diferente, por exemplo, daquele que Marco Antônio tem. O capitão da BarceLusa, comandado de Jorginho naquele título brasileiro, e que está na gestão da SAF, tem uma passagem mais rápida e em um recorte bem específico da história.

Jorginho já experimentou o melhor e o pior, o bom e o ruim, o filé mignon e o osso. Já viveu o sucesso e o fracasso, o campo e o banco. Lidou com treinador e com diretor, com todo tipo de presidente, do melhor ao pior da história. Enfim, sabe de Lusa.

E quanto ao momento atual? Jorginho está fora do mercado da bola há pelo menos duas temporadas, sendo que os últimos trabalhos foram mais espaçados, quase todos como treinador. Já admitiu publicamente, inclusive, que não deseja voltar a ser técnico.

Aí surge uma dúvida um tanto quanto óbvia: estará Jorginho atualizado o bastante para trabalhar na gestão de futebol de um clube? A resposta claramente é: depende. Do quê? Da função que ele exercerá dentro da Portuguesa. De qual será a atribuição dele.

Se fosse para liderar os processos de contratação, fazendo levantamento de atletas, indicação de nomes, puxando para si a montagem do elenco, certamente essa aparente desatualização teria um peso enorme. Nada indica que seria o nome ideal.

No entanto, para o bem ou para o mal, concordando-se ou discordando-se, está mais do que claro que a SAF não pretende mudar o processo de contratações. Será mantido aquele modelo que parte, antes de qualquer etapa, da análise de dados, do “scout”.

Conversando com pessoas ligadas à gestão da SAF, percebe-se que o objetivo é de que o coordenador técnico faça parte desse processo, avaliando os nomes que chegam, os jogadores levantados, e seja uma das vozes ativas para aprovar ou reprovar.

O mesmo, por exemplo, já está acontecendo com o treinador. Após análises, estudos, levantamentos, a SAF tem um nome já tratado como preferencial. No entanto, quer a análise e a avaliação de Jorginho para decidir se fecha ou não a negociação.

Além disso, o coordenador teria um papel bastante voltado à relação com a comissão técnica. A SAF avalia que nesses dois anos de Lusa faltou um profissional com conhecimento de bola, currículo pesado, passado respeitado, moral para opinar, auxiliar, trocar ideias, orientar, fiscalizar, cobrar e “chegar junto” da comissão técnica.

Jorginho na passagem pela Portuguesa em 2016

No entender da SAF, esse coordenador técnico precisa ter esse perfil de Jorginho, que não será visto por um treinador com a desconfiança de que deseja o cargo, nem com a arrogância do “jogou onde”, “treinou quem”, “ganhou o quê”, tão comum no futebol.

Jorginho também seria uma voz de peso na avaliação do desempenho da Portuguesa. Como, por exemplo, a necessidade de uma contratação pontual, ou mesmo uma troca de comando no banco de reservas, e alertas em uma campanha como uma Série D.

Nesse sentido, o fato de não estar tão ativo no mercado da bola nos últimos anos tem menos impacto. Afinal, Jorginho reuniria os atributos que a SAF realmente espera para o cargo. De bola é óbvio que conhece. E o currículo, dentro e fora, fala por si.

Marco Antônio vai continuar? Não era também um coordenador? Sim para as duas perguntas. O capitão da BarceLusa continua. Mas, segundo pessoas ligadas à gestão da SAF, após a avaliação desse tempo no cargo, mais voltado à relação com o elenco.

Dificilmente alguém que acompanha a Portuguesa discordará que a SAF precisa de alguém que conheça o clube e a torcida, alguém que saiba de bola e tenha voz ativa nas decisões, alguém com moral para lidar com o treinador e a própria diretoria.

A questão é que tudo isso depende de autonomia. E que aqui não se interprete autonomia como uma liberdade total e irrestrita, para mandar mais que os superiores. Isso não existe nem em clube associativo, quanto mais em uma SAF/empresa.

O que importa é que essa voz, de fato, seja ouvida. Que as decisões, ainda que discutidas e embasadas internamente, sejam respaldadas. Que essa moral, esse respeito, essa autoridade, esse currículo sejam de fato observados e preservados pela SAF.

Quem conhece sabe que Jorginho não tem perfil de quem se furta de opinar, de quem consente com erros, de quem “engole sapos” serenamente, de quem empurra problemas para debaixo do tapete, de quem aceita “não” sem embasamento justo e confiável.

Por isso, é legítima a desconfiança de alguns torcedores sobre como se dará a relação, por exemplo, com o presidente da SAF, Alex Bourgeois. Alguém que, nessas duas temporadas, também mostra ter personalidade forte e ser bem ativo na gestão.

A verdade é que a criação do cargo de coordenador técnico, com a volta de Jorginho, acabou por virar a única esperança de mudança em uma SAF da Lusa que se mostra bem reativa a correções. Porque é a única mudança concreta, visível, palpável.

A primeira aparição pública de Alex Bourgeois após a segunda eliminação seguida no mata-mata da Série D se deu naquela entrevista à Lusa TV já citada. Nos últimos dias, foi dando para sentir a percepção que a torcida lusitana teve das declarações.

Todo mundo percebeu uma tentativa do presidente da SAF de adotar um tom mais conciliador, admitir erros e pedir desculpas. Tentativa. Porque o que chamou atenção de quase todos foi uma certa dificuldade em fazer isso, realçada por algumas falas.

Apesar de Alex Bourgeois citar que correções serão feitas no processo de contratação, que o foco para a próxima Série D é trazer mais jogadores com histórico de mata-mata e decisão, buscar uma transição menos traumática do elenco do Paulistão, ficaram marcadas para a torcida as principais justificativas dadas para o insucesso.

As menções ao ex-técnico Fábio Matias, a quem atribuiu quatro contratações que não deram certo, e que teriam atropelado os processos internos, e a problemas de vestiário durante a Série D, contra os quais pouco se poderia fazer, roubaram a cena.

A sensação entre a maior parte da torcida acabou sendo de que a SAF é incapaz de assumir erros genuinamente, pedir desculpas claramente e mudar efetivamente. Ainda mais quando se deixa claro que todos os profissionais do futebol serão mantidos.

Ou seja, a SAF pede pela terceira vez à torcida um voto de confiança. Sinalizando, pela segunda vez, que as pessoas não são o problema. Que o problema está nos detalhes do processo. E que esses detalhes serão corrigidos. Fazendo, assim, tudo dar certo.

Essa ausência de mudanças mais concretas, visíveis e palpáveis faz com que a chegada de Jorginho seja... a única mudança concreta, visível e palpável. Não se pode colocar nisso um peso que não tem. Nem simplesmente desconsiderar o possível efeito.

Se as atribuições do coordenador técnico serão as mencionadas pela gestão da SAF, Jorginho pode colaborar. É inegável que ele agrega muitos elementos dos quais a torcida sente falta. Basta ver se terá condições de trabalho e se isso será o bastante.

*Luiz Nascimento, 34, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site.

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