ITATIBA1
O chute no ângulo do "Obina melhor que Eto'o". A cabeçada certeira de Luizão jogando no sacrifício. O cartão vermelho de Valdir Papel com só 15 minutos da partida de volta. O empurrão raivoso de Renato Gaúcho no seu atacante expulso. A…
ge — Futebol · 2026-07-26T15:00:10.000Z
O chute no ângulo do "Obina melhor que Eto'o". A cabeçada certeira de Luizão jogando no sacrifício. O cartão vermelho de Valdir Papel com só 15 minutos da partida de volta. O empurrão raivoso de Renato Gaúcho no seu atacante expulso. A comemoração efusiva de Juan após "matar o jogo" no terceiro gol... A final da Copa do Brasil de 2006 tem muitas cenas marcantes para a torcida do Flamengo. Mas um dos principais personagens do bicampeonato rubro-negro "comeu quieto", como um típico mineiro.
Ney Franco pode não aparecer na maioria das cenas ao pesquisar imagens daquela final, ou nas primeiras lembranças do torcedor ao vasculhar a memória do título. Só que o técnico foi o responsável pelo xeque-mate que surpreendeu o Vasco e fez desmoronar o favoritismo do rival.
Em 2006, Flamengo vence Vasco por 1 a 0 e conquista a Copa do Brasil
A escolha por privacidade ao trocar a Gávea pelo Ninho do Urubu, na época ainda com pequena estrutura. A formação surpresa no esquema tático 3-6-1, que soltava os laterais para atacar (e que virava 3-5-2 com a posse da bola). A improvisação de Toró como volante. E a coragem para lançar o garoto Renato Augusto, de 18 anos, como titular em uma final nacional. Tudo isso foram decisões dele.
Para um técnico que vinha de 13 anos na base, mas menos de dois no profissional pelo Ipatinga-MG, a missão de assumir um Flamengo em turbulência poderia assustar. Por outro lado, aquele título mudou o patamar de Ney Franco no mercado, e o treinador já tem trabalhado até no exterior.
Ney Franco em sua primeira passagem pelo Flamengo
Alexandre Cassiano / O Globo
— Depois vieram outros títulos, como o da Sul-Americana com São Paulo. O de campeão brasileiro (Série B) com o Coritiba em 2010. O da seleção brasileira campeã mundial sub-20, com a geração do Neymar, Casemiro, Danilo, Philippe Coutinho, Oscar e Lucas Moura, também tem uma marca muito importante na minha carreira. Mas logicamente que esse título da Copa do Brasil me abriu e me abre portas até hoje dentro do futebol — afirmou em entrevista ao ge.
Neste domingo, no aniversário de 20 anos do bi rubro-negro, Ney Franco revela que aceitou o convite do Flamengo sem sequer perguntar o valor do salário. Detalha as histórias do título e diz que gostaria um dia de tomar um café com Waldemar Lemas, o seu antecessor no cargo até a semifinal daquela Copa do Brasil, e com quem nunca conversou.
Veja a entrevista:
O que lhe vem à cabeça ao lembrar desse título?
— Cara, eu tive muitas emoções no Flamengo, né? Emoções que eu carrego comigo até hoje, principalmente esse título da Copa do Brasil. Da forma como ele se desenvolveu, eu tenho muitos lances na cabeça porque tive que tomar muitas decisões para essa final. Desde treinamento, forma de jogar, uma intertemporada na parada para a Copa do Mundo... Foram muitas decisões marcantes que realmente ficaram gravada aí no meu histórico e principalmente no meu consciente.
Aquela Copa do Brasil foi o seu título mais marcante?
— Acho que sim. Cada título tem a sua importância. Por exemplo, meu título mineiro com o Ipatinga me abriu portas, e entre essas portas estava essa oportunidade do Flamengo. Talvez se eu não tivesse sido campeão mineiro com o Ipatinga, talvez tudo isso não teria acontecido. Mas o título do Flamengo ficou marcado porque foi o carimbo do meu passaporte, né? Quando fui contratado, logicamente havia vários questionamentos e uma dúvida se a gente teria a competência para ficar no comando. Lembro que quando assumi, o Flamengo vinha numa sequência de troca de treinadores de três em três meses. E eu acabei ficando um ano e quatro meses à frente do Flamengo. Lembro que foi uma marca, acho que o último treinador que tinha conseguido ficar esse tempo era o Zagallo.
Ney Franco, Sávio, Obina e Luizão em treino do Flamengo em 2006
Agência o Globo
O convite do Flamengo foi ainda no vestiário do Maracanã, né? Como aconteceu?
— Terminou o jogo, a gente foi para o vestiário, estava lamentando um pouquinho porque nós jogamos muito bem. Tivemos oportunidades de classificação para a final. Depois de abaixar um pouquinho a adrenalina, o presidente do Ipatinga, o Itair Machado, me chamou: "Ney, o Kléber Leite, do Flamengo, está aí querendo conversar com você. Pode deixar entrar"? "Pode sim". Eu pensei que estaria ali para pegar informação de algum jogador, ou no mínimo dar os parabéns pela campanha. Mas fui surpreendido. Ele me chamou no canto e falou que mesmo com o Flamengo na final da Copa do Brasil eles trocariam o treinador. E que o nome dele (para o cargo) seria o meu.
— Inclusive, ele fez um comentário: "Ney, sei que você está com várias propostas, mas eu queria que você ouvisse a do Flamengo". Quando ele falou isso, pensei assim: "É pegadinha, né? Primeiro, que eu não tinha proposta nenhuma (risos). Ou não sabia de proposta nenhuma, mas fiz uma cara que tinha, né? (Risos). Mas a conversa foi evoluindo, e aos poucos fui sentindo firmeza. Até o momento que ele falou assim: "No domingo a gente faz um jogo pelo Brasileiro, Flamengo x Cruzeiro. Independentemente do resultado a troca vai acontecer na segunda-feira. Logicamente que não depende de mim, eu preciso conversar com os meus pares".
— Aí você imagina a minha cabeça, né? Voltei com a delegação para Ipatinga, conversei com a minha esposa, falei dessa possibilidade. E vivi um final de semana muito diferente, cheio de expectativa misturado com ansiedade. E no fundo pensando: "Os cara vão mudar de ideia". Na segunda-feira, no horário combinado, ele me ligou: "Ney, aquela reunião que a gente teria no período da manhã não teve, vai ser de tarde. Então deixa o seu celular ligado por volta das 18h. Foi mais um momento ali de ansiedade, né? Quando foi por volta de 18h30 ele ligou: "Ney, vai te ligar aí o Isaías Tinoco", que era o supervisor do Flamengo. Nem discuti salário, para você ter ideia da minha vontade de acontecer.
Em algum momento chegou a conversar com o Waldemar Lemos?
— Não cheguei, cara, infelizmente. Estou contando toda uma trajetória de um treinador iniciante, então eu não era acostumado com essa questão de mídia, como que funciona o mundo do futebol. Quando tive o convite, em momento nenhum pensei na saída do treinador. Hoje, já dentro do futebol há muitos anos trabalhando, se eu tiver um convite para trabalhar, a primeira questão que ia saber é se o treinador de lá já saiu. Confesso que na época não aconteceu, eu nunca liguei para o Waldemar, nunca conversei com ele sobre isso.
— Sei que era um profissional muito querido pelos atletas, eu também usufruí do trabalho dele, principalmente dentro da Copa do Brasil. Mas nunca tive o privilégio, oportunidade de sentar com o Waldemar para conversarmos sobre isso, quando aconteceu o fato ou depois. Tenho uma ligação maior com o Oswaldo, que é irmão dele. Mas se um dia eu tiver essa oportunidade de sentar com o Waldemar, tomar um cafezinho, vai ser um prazer enorme.
E como foi para você, um técnico iniciante e vindo de um clube pequeno, conquistar o respeito no vestiário do Flamengo?
— Fui muito bem recebido por todos, acho que o impacto dos primeiros treinamentos foram bons. O time não vinha bem no Campeonato Brasileiro, a gente conseguiu fazer alguns jogos bons, então acho que fui conseguindo o respeito dos atletas. Através do trabalho do dia a dia e dos resultados que começaram a chegar também. Não tive desgaste nenhum. Existe uma confusão de que eu levei jogadores do Ipatinga para o Flamengo. Na realidade, quando fui contratado, no Flamengo já havia quatro jogadores do Ipatinga: Léo Medeiros, Walter Minhoca, Luizinho e Diego Silva. Inclusive, eles foram retirado da minha equipe na semifinal.
Léo Medeiros, Diego Silva e Walter Minhoca chegaram antes de Ney Franco ao Flamengo
— Logicamente que, no início, esses jogadores serviram para a gente trocar ideia. Passaram informação do elenco, deram um panorama do clube para a gente, como que era o treinamento... Na época, o Flamengo não tinha essa estrutura que tem hoje, os nossos treinamentos eram só na Gávea, você ficava com os jogadores ali, a comissão técnica, o tempo todo exposto. Mas essas informações desses quatro jogadores para mim foram muito importante. Principalmente do Léo Medeiros, que era um jogador bem cognitivamente, que observava bem as coisas, inclusive se interessava por parte tática.
Falando em parte tática, e a famosa formação do 3-6-1? Acha que foi a chave para surpreender o Vasco no primeiro jogo?
— Antes de eu assumir o Flamengo, devido ao confronto na Copa do Brasil, eu estudei muito o time. E a gente percebia o seguinte: o Flamengo tinha dois espetaculares laterais, Léo Moura e Juan. Esses dois do meio para a frente eles desequilibram. Mas ao mesmo tempo a gente percebia que não tinha muita proteção nas costas desses atletas. Então nós demos uma explorada no primeiro jogo, inclusive o gol do Camanducaia foi trabalhado no canto do campo, explorando isso.
— Como já tinha isso na cabeça e sabia que o Renato (Gaúcho) nos estudaria também, quis dar uma proteção para minha defesa, e liberar o Léo Moura e o Juan para apoiarem ao mesmo tempo. Eles não apoiam só pela beirada, têm essa característica de entrar pelo meio, principalmente o Juan. Eu tinha duas maneiras de fazer isso: colocar três volantes e um fazer essa cobertura dos lados; mas achei interessante fazer três zagueiros porque tinha do lado direito o Renato (Silva), que era um zagueiro rápido; o Fernando, que é alto e sabe fazer a sobra; e tinha o Angelim, que é um canhoto, tem uma impulsão e qualidade na saída de bola. Hoje, a gente vê no futebol mundial muita gente jogando assim.
— E na realidade, o Renato Augusto jogou como um segundo atacante nesse jogo. Porque eu montei três zagueiros, bati lateral com lateral, e fiz um tripé no meio com Jônatas fazendo um volante centralizado, mais ou menos o que o Casemiro faz na Seleção. O Renato abriu fazendo o corredor do lado esquerdo, como o Paquetá jogou na Seleção naquele jogo que o Brasil foi bem. E tirei o Toró de atacante para fazer um volante do lado direito. O conceito com a bola, o Renato e o Toró viravam meias, e a gente empurrava o Renato Augusto para junto do Luizão. O que o Flamengo fez naquela final é o que a maioria dos clubes fazem hoje, uma saída de bola com três zagueiros, com um zagueiro de um lado que tem essa qualidade de posse.
E funcionou, o Flamengo não foi vazado nos dois jogos. Mas os gols só saíram no segundo tempo depois de alterar a formação, por quê?
— Nós dominamos o jogo primeiramente, tivemos uma equipe com sustentação defensiva nos dois jogos, fizemos três gols e não tomamos nenhum. Quando teve essa mudança, por exemplo, no primeiro jogo o Renato (Silva) machucou e eu coloquei o Obina. Eu tinha possibilidade de manter os três zagueiros com o Rodrigo Arroz, mas segurei o Jônatas como se fosse um zagueiro à frente, protegendo, o Renato abriu mais como um volante do lado esquerdo, o Toró do lado direito, entrou o Renato Augusto como meia, e ficamos com dois atacantes mais centralizados. Então não mudou muito essa liberdade para que o Juan e o Léo pudessem apoiar.
— E essa forma de jogar, quando eu botei a proposta para os atletas em treinamento, eles compraram a ideia. Porque de repente se os cara viram: "Pô, está inventando em cima da hora". Mas eu expliquei direitinho qual era o objetivo, a conclusão, onde a gente poderia chegar dessa forma. E os caras bateram no peito. O próprio Renato Abreu sentiu confortável em fazer esse corredor, o Toró de sair de atacante, e legal que depois ele continuou fazendo essa função com todos os treinadores. Esse achado do Renato Augusto, a recuperação do Luizão, a humildade do Obina de ficar no banco... Naquele momento a gente conseguiu criar um ambiente muito legal que me deu essa tranquilidade de mudar a forma de jogar, porque os jogadores acreditaram.
Ney Franco durante seu trabalho no Al-Hussein na Jordânia
Esse ano você teve a sua primeira experiência em um clube no exterior, mas acabou saindo pouco antes do título do Al Hussein na Jordânia. O que houve?
— Foi um trabalho muito bem realizado lá, a equipe foi campeã nacional e também da Copa da Jordânia. A gente fez uma boa campanha também na Champions League da Ásia, chegamos às quartas de final pela primeira vez. Basicamente era a base da seleção da Jordânia que disputou essa Copa do Mundo. Mas, para a minha surpresa, o clube optou pela minha saída faltando duas rodadas. A penúltima rodada seria contra o lanterna, um time que já tinha caído, então já estávamos com o título garantido. Eles fizeram a mesma coisa com um treinador português ano passado. Faltando três jogos com quatro pontos na liderança, mandaram embora e colocaram um treinador local para ser campeão. E, por coincidência, esse ano colocaram o mesmo treinador para dar a volta olímpica.
— A gente teve alguns problemas dentro do clube, né? Um dos problemas foi que o capitão da nossa equipe, que esteve lesionado boa parte da competição, voltou na reta final. E ele também era capitão da seleção da Jordânia. Era um jogador que trabalhei para recuperá-lo e tomei a decisão de colocá-lo para jogar nessas jogos decisivos. Mas tinha outro atleta também que estava aspirando uma vaga na Copa do Mundo nessa posição. Então, nós tivemos alguns arranhões no trabalho por causa disso. Mas o certo é que eu me sinto campeão também.
E como estão seus planos agora? É seguir no exterior ou voltar a trabalhar no Brasil?
— Estou olhando possibilidades lá fora, o mercado está se movimentando. Mas a minha principal vontade é trabalhar no futebol brasileiro, principalmente Série A. Ou em equipes de Série B com potencial de acesso e de conquista. Está um mercado difícil, fechado, mas a gente acredita no histórico que temos. Eu tenho dois acessos em Série B, fui campeão pelo Coritiba em 2010 e tenho o acesso pelo Goiás em 2018. Estamos trabalhando algumas possibilidades. Apareceu uma, mas por decisão minha preferi não pegar, porque era um time de Série B que a gente viu que não tinha condição de acesso. Então estou esperando uma melhor oportunidade, de preferência no futebol brasileiro.
✅Clique aqui para seguir o novo canal ge Flamengo no WhatsApp
🗞️ Leia mais notícias do Flamengo
🎧 Ouça o podcast ge Flamengo