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Rádios livres sorocabanas: rebeldia de emissoras alternativas no interior de SP
G1 — Brasil · 2026-09-25T13:00:25.000Z
Rádios livres sorocabanas: rebeldia de emissoras alternativas no interior de SP
O Brasil tem pouco mais de 3.300 rádios comunitárias funcionando com licenças definitivas expedidas pelo Ministério das Comunicações. Desse total, 467 estão no estado de São Paulo. O serviço de radiodifusão comunitária é regido e regulamentado por uma lei e um decreto de 1998, mas a origem desses canais de comunicação se deu muito antes e teve uma forte ligação com um movimento marcante na região de Sorocaba (SP).
Neste Dia Nacional do Rádio, comemorado em 25 de setembro por conta do nascimento de Edgar Roquette-Pinto, considerado pai da radiodifusão no país, o g1 fala sobre as rádios livres sorocabanas, movimento caracterizado por emissoras alternativas que faziam transmissões sem terem concessões do governo federal e desafiavam, inclusive, a ditadura militar.
Pesquisador e professor Felipe Parra publicou uma tese de doutorado sobre as rádios livres sorocabanas
O pesquisador e professor Felipe Parra explica que o modelo de radiodifusão livre começou na Europa, com o intuito de propagar informações para públicos específicos. Ele destaca, como exemplos, as rádios de temática ecológica na França e as transmissões que informavam sobre direitos trabalhistas na Itália e, também, em território francês.
Entre os anos 70 e 80, as rádios livres chegaram ao Brasil, explica Parra, mas ganharam um novo olhar por aqui. E Sorocaba esteve no centro desse movimento de radiodifusão. “No Brasil e, mais especificamente em Sorocaba, as rádios livres surgiram diferentes do modelo europeu, mais focadas no entretenimento”, conta.
Nesse período, o país ainda vivia sob uma ditadura militar e a repressão imposta pelo regime se opunha à cultura de liberdade de expressão que sustentava o conceito da radiodifusão livre e que encontrou, principalmente, nos jovens uma forma de transgressão.
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“As rádios livres foram pensadas levando em conta a liberdade de gerenciamento e informação. Era uma cultura voltada para a expressão. Os jovens estavam saturados com as programações locais, as mesmas locuções e músicas. Era tudo muito pasteurizado”, afirma o pesquisador.
Utilizando equipamentos amadores e sem concessões para explorar frequências radiofônicas, esses jovens decidiram, então, fazer as próprias transmissões, tendo sempre como inspiração as rádios profissionais, mas adicionando a esse modelo um toque de rebeldia.
“Muitos começaram estabelecendo conversas entre uma rádio e outra. As emissoras se sintonizavam e eram utilizadas como se fossem telefones mesmo, para estabelecer uma comunicação entre elas. E utilizavam, para isso, uma linguagem mais informal, às vezes até falando palavrões. Era uma rebeldia”.
Em 1986, Robson César transmitiu uma entrevista com Antônio Ermírio de Moraes na rádio livre que mantinha
Folha de Votorantim/Reprodução
Parra, autor da tese de doutorado “Rádios livres sorocabanas: 40 anos depois”, esclarece que a radiodifusão livre não pode ser comparada às transmissões piratas, embora sejam frequentemente usadas como sinônimos.
“As rádios livres, além dessa premissa de liberdade de expressão, não tinham fins lucrativos. Elas não visavam lucro, portanto, as transmissões piratas não têm a ver com esse conceito que surge na Europa. Mas é fato que esse termo ganhou a atenção dos jovens e deixou de ser pejorativo na época. Acabou virando descolado”.
Parra diz que, na época, chegavam a dizer que essas rádios invadiam as frequências da polícia e das ambulâncias, mas frisa que isso não é verdade e que essa hostilidade podia ser explicada pela natureza clandestina.
Músicas e abraços
Mas, se as rádios livres não tinham intenções comerciais, elas transmitiram o quê? O pesquisador aponta que, além da “função telefone”, muitos escolhiam tocar as músicas que gostavam e que, muitas vezes, não tinham espaço nas emissoras tradicionais. “Havia quem usasse as transmissões para mandar beijos e abraços e quem recebesse pedidos de música”.
“Havia rádios de rock psicodélico, de samba, bolero e aquelas que retratavam a cultura da nossa região. Uma delas, inclusive, transmitia batalhas de Cururu em Votorantim. Em 1982, havia mais de 200 rádios livres na região”, completa.
Transmissor utilizado por Robson César para fazer as transmissões livres na década de 80
Parra destaca, também, a inventividade dos apaixonados por rádio, que chegavam a construir os próprios transmissores. “Essas montagens eram feitas, geralmente, por tentativa e erro. Eles compravam peças e manuais por correio, ganhando expertise, além de fazerem a programação, os cortes e as vinhetas de forma analógica, utilizando fitas k7 e durex”.
Paixão por rádio
Aos 15 anos, no início da década de 80, Robson César era um jovem apaixonado por rádio quando um amigo deu a ele um transmissor fraco. Depois, um primo, que era engenheiro eletrônico, presenteou-o com um mais potente e, assim, começou a fazer transmissões em Votorantim (SP). Primeiro, a rádio chamou-se Edisson FM e, depois, Transuniversal FM.
“Meu objetivo não era ficar conversando, era fazer rádio mesmo. Eu tentava replicar os locutores, criava as vinhetas, anunciava músicas, mandava abraços para os amigos e os ouvintes faziam pedidos musicais. A criançada do bairro curtia muito”, detalha.
Para agradar os ouvintes, César tocava os sucessos da época. “Eu comprava os discos, principalmente as trilhas de novelas, que eram variadas. Eu também gravava músicas das rádios e tocava as que eu não tinha em disco”.
Robson César: paixão por rádio e aprendizado com a radiodifusão livre em Votorantim (SP)
Em 1986, César chegou a entrevistar o empresário e então candidato ao governo de São Paulo, Antônio Ermírio de Moraes, e transmitiu a entrevista na rádio livre que mantinha.
A paixão virou uma carreira e, também em 1986, César se formou em um curso de rádio. Logo depois, conseguiu o primeiro trabalho como locutor em uma emissora de Sorocaba e, desde então, trabalhou em outras radiodifusoras na região e até fora do Brasil.
Alternativa à “Voz do Brasil”
Também na década de 80, o cantor Tony Granati começou a transmitir depois de não passar em um teste de locução em uma rádio profissional e de conhecer uma pessoa que montava equipamentos de radiodifusão.
“Comecei com as conversas, usando como um rádio comunicador. Depois, comecei a me interessar por microfones e fazer locuções. Fui tomando gosto, fazendo programações, tocava de tudo e até cantava”.
Granati esteve à frente da Columbia FM e, depois, da Radioatividade FM. A programação ia ao ar, como na maioria das rádios livres, enquanto “A Voz do Brasil” era transmitida pelas emissoras tradicionais. “Chegava a dar o telefone para as pessoas pedirem músicas, conversava com os ouvintes e até fazia sorteios de discos, que eu mesmo levava para os ganhadores”, relata.
Tony Granati: tocava músicas e até cantava na programação das rádios Columbia FM e Radioatividade FM
De marginal a legal
Ao pesquisar sobre as rádios livres sorocabanas para a tese de doutorado, Parra entendeu que essa forma de comunicação da época permitiu que o pensamento hostil sobre essa alternativa fosse revisto e que as discussões começassem a mudar. “Sem dúvida, a radiodifusão livre é a origem das rádios comunitárias. Após serem tiradas do ar pelas autoridades, houve um boom para regularizar e para que tivessem espaço assegurado, permanecendo mais independentes”.
“Sorocaba já foi a capital das rádios livres e esse movimento fortaleceu a questão da legitimação. Nós éramos marginalizados, mas hoje as rádios comunitárias se estabeleceram por lei”, conclui César.
Microfone das transmissões da rádio livre de Robson César: equipamento melhorou ao longo do tempo
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