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Pinguim-de-Sobrancelha-Branca (Pygoscelis papua), de aparência muito próxima à nova espécie
G1 — Brasil · 2026-09-25T14:47:30.000Z
Pinguim-de-Sobrancelha-Branca (Pygoscelis papua), de aparência muito próxima à nova espécie
gabriel_delasala / iNaturalist
Por mais de um século, exemplares de um pinguim que vive nas remotas Ilhas Kerguelen, no sul do Oceano Índico, estiveram diante dos olhos da ciência sem que fossem formalmente reconhecidos como uma espécie própria. Tratados dentro do complexo dos pinguins-gentoo, esses animais escondiam diferenças evolutivas que agora levaram pesquisadores a descrever uma nova espécie.
Batizado de Pygoscelis kerguelensis, o pinguim-gentoo-do-sudeste foi formalmente descrito por uma equipe internacional de pesquisadores e representa, segundo a Universidade da Califórnia em Berkeley, a primeira nova espécie de pinguim nomeada em mais de 100 anos.
A descoberta faz parte de um estudo publicado neste ano na revista científica Communications Biology, do grupo Nature. O trabalho analisou populações de pinguins-gentoo espalhadas pelo Oceano Austral e concluiu que animais historicamente reunidos em uma única espécie representam, na realidade, quatro espécies distintas.
Uma delas nunca havia sido formalmente reconhecida: P. kerguelensis, encontrada nas remotas Ilhas Kerguelen, arquipélago francês localizado no sul do Oceano Índico.
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Espécie estava “escondida”
Identificar o novo pinguim não era uma tarefa simples. Externamente, ele é muito parecido com outros representantes do grupo.
É justamente por isso que os pesquisadores o consideram uma espécie críptica, termo utilizado para organismos que apresentam grande semelhança física com espécies próximas, apesar de possuírem diferenças evolutivas e genéticas importantes.
No caso de P. kerguelensis, existem diferenças morfológicas. O estudo mostra que o animal apresenta tamanho intermediário: é menor que Pygoscelis papua, maior que P. ellsworthi e semelhante em tamanho a alguns dos outros grupos analisados.
Ainda assim, apenas a aparência não contava toda a história.
Pinguim-gentoo (Pygoscelis papua)
susanyingwang / iNaturalist
Para investigar a relação entre essas populações, os cientistas ressequenciaram o genoma de 64 pinguins de dez colônias reprodutivas distribuídas pelo Oceano Austral. A análise encontrou mais de 9 milhões de variações genéticas e revelou quatro grandes linhagens evolutivas.
Além das informações genômicas, os pesquisadores combinaram dados ecológicos, morfológicos, filogenéticos e biogeográficos para avaliar se essas populações seguiam trajetórias evolutivas independentes. O estudo é o primeiro a abranger quase toda a distribuição geográfica dos pinguins-gentoo.
Os resultados sustentaram a divisão em quatro espécies: o gentoo-do-norte (Pygoscelis papua), o gentoo-do-sul (P. ellsworthi), o gentoo-do-leste (P. taeniata) e o recém-descrito gentoo-do-sudeste (P. kerguelensis).
Um exemplar coletado em 1897
Apesar de a espécie ter sido formalmente descrita somente agora, o exemplar utilizado como referência pelos pesquisadores está guardado há mais de um século.
O holótipo — nome dado ao espécime usado como referência na descrição científica de uma espécie — é um macho adulto coletado nas Ilhas Kerguelen em 31 de dezembro de 1897 por Robert Hall. O exemplar pertence à coleção do Museu Americano de História Natural, em Nova York.
Outros exemplares históricos também fizeram parte das análises morfológicas, incluindo animais coletados nas Ilhas Kerguelen ainda no século XIX.
Pinguim-gentoo (Pygoscelis papua)
susanyingwang / iNaturalist
O próprio nome científico faz referência ao lugar onde o animal ocorre: kerguelensis deriva das Ilhas Kerguelen.
O arquipélago também ajuda a explicar por que o animal permaneceu tanto tempo sem ser reconhecido como uma espécie distinta. As ilhas são extremamente isoladas e ficam a quase 3,2 mil quilômetros da região permanentemente habitada mais próxima, segundo a UC Berkeley.
DNA conta a história dos pinguins
As diferenças encontradas pelos cientistas vão além da separação entre espécies.
Os genomas revelaram sinais de seleção natural diferentes entre as linhagens, relacionados a funções como termorregulação, metabolismo, transporte de oxigênio e desenvolvimento do esqueleto.
No gentoo-do-sul, por exemplo, foram encontrados sinais de seleção relacionados à produção de calor, armazenamento de gordura e percepção visual, características compatíveis com a vida em ambientes polares extremos.
Já no gentoo-do-leste, os pesquisadores identificaram sinais relacionados ao metabolismo energético e ao transporte e uso de oxigênio, que podem favorecer mergulhos prolongados em regiões de menor produtividade marinha.
A separação dessas populações teria sido favorecida não apenas pela geografia, mas pelo próprio comportamento dos animais. Pinguins-gentoo apresentam forte fidelidade às áreas onde se reproduzem e dispersam pouco durante o ciclo de vida, característica que pode reduzir o fluxo de genes entre colônias distantes.
Com o passar do tempo, populações submetidas a ambientes diferentes acumularam diferenças genéticas, ecológicas e físicas.
Pinguim-gentoo (Pygoscelis papua)
wildatlasguide / iNaturalist
Descoberta pode mudar estratégias de conservação
Reconhecer quatro espécies onde antes se considerava apenas uma também traz consequências para a conservação desses animais.
Atualmente, os pinguins-gentoo são avaliados globalmente pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como uma única espécie classificada como de “Menor Preocupação”.
O problema, segundo os pesquisadores, é que essa avaliação conjunta pode esconder situações muito diferentes entre as populações.
A espécie do sul corresponde a aproximadamente 65% da abundância global de pinguins-gentoo considerada no estudo e suas populações têm impulsionado o crescimento global do grupo. Enquanto isso, outras linhagens apresentam trajetórias diferentes. Na Ilha Macquarie, por exemplo, houve redução de 50% no número de pares reprodutivos nas últimas três gerações, segundo dados reunidos pelos autores.
Modelos utilizados no estudo também apontam que as espécies do norte, leste e sudeste podem enfrentar uma forte redução de áreas ambientalmente adequadas até 2050, considerando um cenário intermediário de mudanças climáticas.
O gentoo-do-sul, por outro lado, pode ter uma expansão moderada de aproximadamente 9% em seu habitat adequado. Os pesquisadores ressaltam, porém, que essas projeções possuem limitações e não devem ser interpretadas como previsões de extinção, já que os modelos não incorporam toda a capacidade de adaptação e flexibilidade dos animais.
Para Juliana Vianna, uma das autoras sêniores do estudo e professora da Universidade Andrés Bello, no Chile, a situação merece atenção principalmente fora da Antártica.
“Na Antártica, é claro, outras espécies, e não o gentoo, estão ameaçadas pelas mudanças climáticas. Mas o gentoo é mais preocupante na região subantártica”, afirmou a pesquisadora em comunicado divulgado pela Universidade da Califórnia em Berkeley.
A pesquisadora destaca ainda que as diferentes populações estão distribuídas por ilhas ligadas a diferentes países, o que exige esforços de conservação específicos.
“É muito importante que as instituições de conservação de todos os diferentes países envolvidos reconheçam essas três espécies de pinguins-gentoo e adotem medidas adequadas para protegê-las”, acrescentou Vianna.
Para os autores, separar corretamente essas linhagens é fundamental justamente porque cada uma possui sua própria história evolutiva, dinâmica populacional e exposição às mudanças ambientais.
A descoberta de Pygoscelis kerguelensis, portanto, não acrescenta apenas mais um nome à lista de pinguins conhecidos. Ela mostra que diferenças importantes podem permanecer escondidas até mesmo entre animais aparentemente familiares — e que descobrir onde termina uma espécie e começa outra pode mudar também a forma de protegê-las.
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