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Opinião: SAF fica nua, fracassa na Série D e deixa Portuguesa fora do ar por meio ano

Portuguesa 1 x 0 Uberlândia | Gol | Oitavas (Volta) | Campeonato Brasileiro Série D 2026

ge — Futebol · 2026-07-26T19:41:43.000Z

Portuguesa 1 x 0 Uberlândia | Gol | Oitavas (Volta) | Campeonato Brasileiro Série D 2026

As principais razões da eliminação da Portuguesa nas oitavas de final da Série D do Campeonato Brasileiro, perdendo fora por 2 a 0 e vencendo em casa por apenas 1 a 0, diante do Uberlândia-MG, acabaram sendo bem resumidas em dois símbolos.

Um dos símbolos diz respeito ao campo: foi a Lusa ter terminado o confronto com um zagueiro, Gustavo Henrique, como centroavante. Não por invenção, mas necessidade. Afinal, com Cadorini suspenso, o técnico Ademir Fesan não tinha nenhum substituto.

Ao colocar Gustavo Henrique como referência ofensiva, na tentativa de aproveitar algum dos chuveirinhos à área, o treinador acabou indiretamente deixando a SAF nua e expondo, no gramado do Canindé, a fragilidade de um elenco mal montado.

Esse elenco frágil, cheio de lacunas, explica essa campanha da Portuguesa. Ademir Fesan assumiu na segunda rodada, após a saída relâmpago de Fábio Matias para a Série A (com passagem igualmente relâmpago), e foi avisado de que seria esse o grupo.

Um grupo que, de forma natural, perdeu os principais destaques do Paulistão, como o lateral-esquerdo Caio Roque, os meias Zé Vitor e Gabriel Pires, e os atacantes Ewerthon e Renê. E que depois perdeu um atacante nada contente com a Série D, Maceió.

Elenco da Portuguesa

As contratações foram, além de muito abaixo do nível técnico, baseadas em uma premissa que a SAF sempre propagou evitar: indicação de técnico. Fábio Matias bancou, por exemplo, o machucado Toró e o polêmico João Diogo.

No primeiro caso, terminou a Série D sem ainda estar bem fisicamente. No segundo caso, gerou uma crise enorme com a torcida, e ainda maior internamente, com cabeças rolando, para se ter em campo um atleta de nível técnico extremamente contestável.

Culpa do ex-treinador? Um pouco. Só que maior da SAF, que fez o que sempre pregou não fazer. Para piorar, a Lusa foi para a Série D sem um volante mordedor convincente. Hudson, que depois se machucou, e Cecchini, jamais corresponderam em campo.

Sacrificou o único lúcido e um pouco mais técnico do time, Portuga, sobretudo quando ficou refém da dupla de zaga reserva, que pena para acertar passes de meio metro. Ao lado de Portuga, um meia “de lua”, quase sempre minguante, Thiaguinho.

Na frente, um Igor Torres bastante esforçado e cuja dependência só evidenciou a má montagem do elenco, afinal, em 2025 era reserva. Uma beirada esquerda que teve um insípido Maceió e depois dependeu de uma – essa boa – improvisação de Hipólito.

Por fim, a referência: Cadorini. Um jogador com limitações com os pés, mas que acabou virando uma boa válvula de escape com a cabeça. Quis o destino que, com ela, também fosse expulso estupidamente no jogo de ida contra o Uberlândia-MG.

O que leva a análise de volta ao início do texto: que opções essa escalação tinha? Quase nenhuma. Lá atrás, a dupla reserva teve de virar titular, por lesões e suspensões. As laterais, ainda bem, não precisaram de grande reposição e foram isoladamente bem.

Ademir Fesan, técnico da Portuguesa

O meio, quando não tinha Portuga, não existia. Ruim com Thiaguinho, pior sem ele. Na frente, Toró foi uma mera garoa, João Diogo não passou da boa vontade, Cauari é velocidade e pouco a mais, e Guilherme Santos é melhor nem comentar.

Pode-se lamentar a lesão de Thiago Rubim, único contratado para repor uma saída, no caso, a de Maceió. Até foi bem quando jogou, mas não era centroavante. Ou seja, um grupo cheio de lacunas, mesmo para os baixos padrões de uma Série D.

Por falta de aviso não foi. Passou-se a fase de grupos toda alertando. Este espaço de opinião, inclusive, talvez não tenha deixado de mencionar em uma rodada sequer. Só quando, na entrada do mata-mata, deixou-se claro que ninguém mais viria.

Aí não adiantava mais cobrar. Era acreditar e tentar adaptar o que se tinha. Qual era a única chance de essa Lusa subir? Empatar fora e tentar achar um gol no Canindé. Foi assim na segunda e na terceira fases, contra Sampaio Corrêa-RJ e Marcílio Dias-SC.

Fesan encontrou a melhor formação possível com o pouco que tinha, com três zagueiros. Só que, no Triângulo Mineiro, os comandados deram um 2 a 0 de presente com duas displicências: uma no setor defensivo e outra do artilheiro do time.

No Canindé, na volta, até dava. Mas a aposta era mais no nível técnico baixo da Série D e no fato de o futebol ser imprevisível do que realmente na capacidade técnica. Um time que não consegue abafar, pressionar, criar chances. Sofre para finalizar.

Um elenco que, ao contrário do que apregoa a SAF, não é “infinitamente melhor” que o de 2025, não é tão “acima da média da divisão” assim e que pode até ter mais perfil que o da temporada anterior, mas ainda careceu de pegada, liderança, traquejo de Série D.

Esse lado, do perfil, tão falado no ano passado, melhorou um pouco. Mas não o suficiente. E melhorou mais pelo estilo da comissão técnica, acostumada com a divisão, do que por muitos nomes em campo. Foi talvez a única evolução mais visível.

Quer dizer que a comissão técnica não tem responsabilidade? De forma alguma. Há o que se contestar e criticar aqui e ali, sobretudo nos jogos contra o Uberlândia-MG, mas a causa principal do insucesso é um elenco curto, esburacado, justo, limitado.

Fruto de uma economia burra. Afinal, essa economia, embalada como responsabilidade financeira, joga no lixo tanto 2026 quanto 2027, em que mais uma vez a Lusa disputará a Série D. Não era melhor ter contratado dois ou três para o mata-mata?

O elenco curto funcionou no Paulistão, mas com uma comissão técnica que tirou leite de pedra, um onze titular que encaixou, com peças de fato qualificadas em posições-chave, e em um campeonato curto. Quase que um torneio. Pouquíssimos jogos.

Aqui se escreveu, várias vezes, que a Série D é diferente. Campeonato longo, de fôlego, muito mais físico, mais propenso a lesões e suspensões, em gramados ruins, em que se precisa minimamente de opções. A SAF, mais uma vez, subestimou a divisão.

O outro símbolo diz respeito ao extracampo: o silêncio na semana decisiva. A opção por “sair do ar” antes do jogo de volta contra o Uberlândia-MG foi, sem dúvida alguma, a pior ação de marketing já realizada pela Portuguesa desde que virou SAF.

Deixou nítido o despreparo da direção da SAF para lidar com uma adversidade, passou a imagem de desorientação, omissão e incômodo com a torcida. Tentou-se criar um cenário de guerra internamente, mas colocando a torcida do outro lado da trincheira.

Foi o exemplo máximo de que os profissionais da SAF, mesmo com pesquisas e reuniões, não entenderam a torcida da Portuguesa. Com isso, acabaram fazendo algo bizarro, que foi medir mal demais a temperatura da arquibancada para a decisão.

Só que não há como esperar algo diferente de quem parece não se importar com o fato de não entender. Afinal, o tempo passa e só se vê distanciamento. Quando não há silêncio, há uma relação empresa/cliente, gelada, não clube/torcida, emocional.

É nítido o quanto existe um abismo entre a SAF e o meio em que ela está inserida. Um abismo que se consolidou com esse silêncio. Um silêncio que, no fim, virou pura chacota para o Uberlândia-MG e só deixou a torcida lusitana em vergonha.

“Fora do ar” mesmo a SAF deixou a Portuguesa. Afinal, há um semestre todo pela frente e 2026 já acabou para o clube. Não há o que disputar. Somente o Paulistão na próxima temporada. Um período longuíssimo e que dá a dimensão do fracasso.

Alex Bourgeois, gestor da Portuguesa

De 2025 para 2026, infelizmente, viu-se que os aprendizados não foram tantos assim. Sim, o Paulistão foi excelente. Que seja também em 2027. Só que esse não é o foco. O objetivo principal é sair do porão do inferno do futebol brasileiro que é a Série D.

A SAF não só é como se intitula uma empresa. Que empresa profissional, séria e comprometida com resultados mantém a mesma estrutura e o mesmo modelo de trabalho não conseguindo atingir os objetivos básicos por dois anos seguidos?

Nem é preciso fazer uma enquete entre a torcida da Portuguesa para saber que a saída de Alex Bourgeois seria aprovada por quase a unanimidade. Isso porque o presidente da SAF personifica a gestão, tanto por ser o líder quanto por se portar assim publicamente.

Na vida real, porém, não é assim que funciona. Bourgeois é um dos investidores. Só sai se quiser sair. Ou se vender a parte dele. Portanto, cabe ao presidente da SAF, desta vez, mudar de verdade. Está claro que o trabalho para a Série D não está sendo bem feito.

É preciso, de uma vez por todas, descer do pedestal, aprender com os erros, investir no que de fato traz resultados, mexer nas estruturas, entender a Série D e a Portuguesa, tratar clube e torcida como ativos, não como pesos, delegar e evitar bajulação.

O que mais dói é ver que dava. Que, desta vez, jogou-se no lixo uma chance ainda mais clara, próxima, viável. Por pura insistência no erro, soberba e economia burra. Por desconhecer o que se comanda e onde se está. O sucesso vem com correção de rota e não com teimosia para provar a si próprio. Ou muda, ou será apenas isso aí.

*Luiz Nascimento, 34, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site.

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