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Representante do Brasil no Oscar, 'Feito Pipa' amplia imaginário do cinema com Sertão colorido, diz roteirista

Pesquisadora Eliana Guerra fala sobre o sertão nordestino no cinema brasileiro

G1 — Brasil · 2026-09-27T09:00:00.000Z

Pesquisadora Eliana Guerra fala sobre o sertão nordestino no cinema brasileiro

Representante brasileiro para eventual vaga no Oscar de melhor filme internacional, "Feito Pipa" propõe um olhar diferente sobre o interior do Nordeste. Em vez de imagens associadas à seca e à pobreza, o longa-metragem dirigido pelo cearense Allan Deberton aposta em afeto, cores, memória e música para contar a história de Gugu, menino de 11 anos criado pela avó materna.

Em entrevista ao g1, o roteirista André Araújo afirmou que uma das preocupações durante a escrita foi revisitar a forma como o cinema historicamente retrata o Nordeste.

"Quando estou escrevendo, sempre me preocupo em atualizar as imagens e os imaginários que o cinema produz sobre o Sertão. No 'Feito Pipa', esse Sertão colorido surge como uma forma de se distanciar daquele Sertão que a gente costuma ver da fotografia alaranjada ou da luz estourada, o Sertão da miséria, o Sertão da seca", disse.

Para Araújo, o filme apresenta outras formas de enxergar esse território: "É o colorido que se manifesta através das pessoas, dos personagens, que se manifesta na própria fotografia, na identidade de Gugu, de Dilma, que se apropriam desse universo lúdico para se projetarem no mundo, para serem quem são".

Yuri Gomes, de 11 anos, viveu Gugu no filme "Feito Pipa" (2026)

Poucos territórios foram tão revisitados pelo cinema brasileiro quanto o interior nordestino. Ao longo do século XX, a região foi palco de diferentes movimentos e estéticas, desde a fase inaugural, representada por produções como "O Cangaceiro" (1953), de Lima Barreto, até os filmes do Cinema Novo, que transformaram a paisagem sertaneja em símbolo das desigualdades sociais brasileiras, sobretudo através da obra do cineasta baiano Glauber Rocha, com destaque para “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964).

Para a pesquisadora paulista Eliana Guerra, que faz doutorado em História da Arte na Universidade de Salamanca, na Espanha, o Sertão ocupa uma posição singular na cinematografia brasileira por ser um território que ela considera simbólico.

"Ao longo da história do nosso cinema, ele foi construído e representado a partir de questões muito profundas da sociedade brasileira, como a desigualdade, os conflitos pela terra, a religiosidade, a violência e as migrações, mas também os afetos, os modos de vida e diferentes formas de existência", afirma.

Segundo ela, o próprio cinema participa da construção do imaginário sobre a região: "Durante muito tempo, determinadas representações acabaram associando esse território principalmente à seca, à pobreza, à violência e ao cangaço. Mas o cinema brasileiro também foi transformando essas imagens e mostrando que existem muitos sertões, com diferentes paisagens, sujeitos, experiências e modos de vida."

A partir dessa pesquisa, Guerra define o Sertão como um "dispositivo estético e político" do cinema brasileiro.

"Ele não funciona apenas como cenário. A paisagem, a luz, os sons, os corpos, os modos de falar e de viver participam da construção dos sentidos da obra. E ele também é político porque escolher como representar o Sertão significa escolher quais sujeitos, histórias e experiências serão vistos e ouvidos", define.

Filme "Feito Pipa", escolhido para representar o Brasil na busca pelo Oscar 2027, tem como cenário o município de Quixadá

Nas últimas décadas, cineastas passaram a apresentar novas leituras desse território. Obras como "O Céu de Suely" (2006), de Karim Aïnouz; "Bacurau" (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles; e "Paloma" (2022), de Marcelo Gomes, ajudaram a ampliar o repertório de experiências, paisagens e personagens associadas ao interior nordestino, como são os casos dos protagonistas interpretados por Hermila Guedes, Silvério Pereira e Kika Sena, respectivamente.

É nesse contexto de multiplicação dos olhares sobre o interior do Nordeste que "Feito Pipa" pode ser inserido. "São filmes que, cada um à sua maneira, ajudaram a ampliar o imaginário sobre o Sertão e a romper com uma representação muito cristalizada desse lugar no cinema brasileiro", afirma o roteirista do filme, André Araújo.

Entre as referências mais próximas, ele cita especialmente a obra de Aïnouz gravada em Iguatu e "Pacarrete" (2019), obra estrelada pela atriz Marcélia Cartaxo, um longa-metragem rodado em Russas, no Vale do Jaguaribe, que, assim como "Feito Pipa", tem colaboração de Araújo no roteiro e a direção assinada por Deberton.

"O que me interessava era imaginar o Sertão pelo olhar de Gugu: um lugar que pode ser duro e atravessado por contradições, mas que também é colorido, afetivo, fantasioso e cheio de possibilidades. O Sertão do filme não é apenas o cenário onde Gugu vive. É parte da maneira como ele inventa o mundo" , pontua o roteirista.

André Araújo é roteirista de Feito Pipa

Quixadá e a cidade que emergiu

As filmagens de "Feito Pipa" foram realizadas em Quixadá, no Sertão Central cearense. A escolha, segundo o roteirista, foi resultado de um estudo de viabilidade.

"Fizemos uma pesquisa de locação em todo o Ceará até chegar a esse município, que conseguia suprir todas as demandas do roteiro em termos de paisagens e questões logísticas", explica.

Mas a origem da história nasceu fora, num estado vizinho, que também compartilha o clima semiárido. Em 2012, Araújo conheceu São Rafael, no interior do Rio Grande do Norte, município conhecido por ter sido parcialmente inundado pelas águas da barragem Armando Ribeiro Gonçalves. Em períodos de estiagem, estruturas da cidade velha emergem, entre elas a torre da igreja, experiência que foi ponto de partida para o roteiro.

"Na época, eu estava fazendo uma pesquisa sobre a cidade antiga que havia reaparecido após 30 anos submersa pela barragem. Aquela imagem da igreja me inspirou a pensar essa história. A cidade que reaparece e as memórias que se apagam. Em 'Feito Pipa', a memória é sobrevivência", afirma André Araújo.

É a mesma cidade que aparece num clássico do cinema realizado no interior do Nordeste: "Cabra Marcado para Morrer" (1984). Em São Rafael, o cineasta Eduardo Coutinho reencontrou Elizabeth Teixeira durante as filmagens do documentário que aborda a luta pela reforma agrária na ditadura militar no Brasil.

Embora com temas distintos, as duas obras demonstram como o Sertão tem sido ressignificado pelo cinema brasileiro. Essa aproximação ganha força com a memória ocupando papel central nas narrativas: se Coutinho documenta uma história interrompida pela repressão política, Araújo e Deberton partem da imagem de uma cidade submersa para construir uma trama em que recordar é uma forma de permanecer.

O amor entre avó e neto

Filme cearense "Feito pipa" é pré-selecionado para representar o Brasil no Oscar

Em inglês, o filme ganhou o nome de "Gugu's World" ("O Mundo de Gugu", em tradução livre), como forma de sintetizar a jornada do protagonista: um menino criado pela avó materna que, após descobrir que ela está perdendo a memória, luta para não ir morar com o pai homofóbico, interpretado por Lázara Ramos.

Para o roteirista André Araújo, esse vínculo entre avó e neto é um dos elementos que mais têm emocionado espectadores em diferentes festivais, como Berlim e Gramado.

Eu também fui um menino criado por vó, assim como Gugu. Nas sessões que a gente tem feito pelo mundo, a relação de Gugu e Dilma tem tocado e emocionado os mais diferentes públicos."

Segundo ele, a força emocional da história está na universalidade desse afeto: "O amor que une avó e neto é tão verdadeiro, tão íntimo, mas também tão autêntico, divertido, que nem mesmo o Alzheimer consegue apagar. É o fio que permanece para além da memória e do esquecimento. E é o fio que conecta o público com a história".

Livre para ser quem é

Outro aspecto central da narrativa é a construção de Gugu como uma criança queer. O roteirista afirma que desejava retratar um personagem marcado não apenas pelos conflitos provocados pela intolerância, mas também pela liberdade característica da infância.

"Quando idealizei Gugu, eu queria que ele fosse radiante, livre, performático, mas, sobretudo, uma criança. Uma criança que ainda não precisa nomear quem é, que experimenta o mundo com liberdade e encontra prazer em ser exatamente como é", comentou.

Para Araújo, a trama desafia a ideia de um Sertão exclusivamente conservador: "Eu queria imaginar outras possibilidades. Um Sertão onde esse menino também pudesse ser livre, amado e feliz, não apesar de quem ele é, mas simplesmente sendo quem é."

Embora ainda não tenha assistido ao longa, a pesquisadora Eliana Guerra afirma acompanhar com interesse a trajetória da produção: "O fato de ter sido filmado em Quixadá e de estabelecer uma relação tão próxima entre os personagens e o território já desperta bastante o meu interesse como pesquisadora."

Para ela, filmes produzidos em diferentes épocas demonstram que não existe uma única imagem da região no audiovisual brasileiro.

"Não existe uma única imagem do Sertão, mas muitos Sertões possíveis no cinema brasileiro", concluiu a pesquisadora.

Representante brasileiro na corrida por uma vaga entre os cinco indicados ao Oscar de Filme Internacional, "Feito Pipa" tem o desafio de repetir a melhor fase do cinema brasileiro, com duas indicações seguidas ao prêmio de melhor filme internacional, "Ainda Estou Aqui" (2024) e "Agente Secreto" (2025), tendo o primeiro conquistado para o Brasil a então inédita estatueta dourada.

Em cartaz em Juazeiro do Norte durante uma semana, o longa teve sessões lotadas. O professor Ribamar Bringel Filho conseguiu assistir ao filme e destaca a canção que é uma das cenas que sintetizam o afeto entre a vó Dilma e neto Gugu.

"A música “Time After Time”, de Cyndi Lauper, transmite justamente essa ideia de estar presente, de permanecer ao lado de alguém, mesmo quando tudo está mudando. No filme, a música reforça a sensação de que o afeto da avó é um porto seguro para o neto. Acho que é isso que torna o filme tão delicado: mostrar que acolher uma criança também é permitir que ela seja livre para descobrir quem é. E que amar é estar por perto, sem impedir que o outro siga seu próprio caminho", destaca.

Feito Pipa, filme estrelado por Lázaro Ramos, Yuri Gomes e Teca Pereira.

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