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'Agudo grave' de Zélia Duncan se abre na pulsação transformadora de show com direção musical de Maria Beraldo

Zélia Duncan reconstrói hits como 'Catedral' e 'Nos lençóis desse reggae' com a renovadora textura sonora do show 'Agudo grave'

G1 — Brasil · 2026-09-27T09:30:01.000Z

Zélia Duncan reconstrói hits como 'Catedral' e 'Nos lençóis desse reggae' com a renovadora textura sonora do show 'Agudo grave'

♫ CRÍTICA DE SHOW

Título: Agudo grave

Artista: Zélia Duncan

Data e local: 25 de setembro de 2026 na casa Vivo Rio (Rio de Janeiro, RJ)

Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2

♬ Zélia Duncan deu passo à frente no álbum “Agudo grave”, 15º disco de estúdio da cantora, compositora e instrumentista fluminense em 45 anos de carreira iniciada em Brasília (DF) em 1981. O movimento foi articulado em conexão com Maria Beraldo, produtora musical e arranjadora do álbum “Agudo grave”.

No show homônimo que estreou em 4 de setembro em São Paulo (SP) e que chegou ao Rio de Janeiro (RJ) na noite de sexta-feira, 25 de setembro, Zélia expande esse movimento sob direção musical da mesma Maria Beraldo. Em cena, o “Agudo grave” de Zélia Duncan se abre e se amplifica no sopro transformador de arranjos que renovam as músicas do repertório pregresso da cantora.

Terceira música na disposição de roteiro, “Me revelar” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 2001), por exemplo, ganha outra pulsação. Até “Catedral” (“Cathedral song” – Tanita Tikaran, 1988, em versão em português de Christiaan Oyens, 1994), música que catapultou a cantora ao estrelato em 1994, é reconstruída na cena leve e inventiva do show “Agudo grave”, com direito ao sopro do clarone de Maria Beraldo na estreia carioca do show na casa Vivo Rio.

Zélia Duncan assina a direção do show 'Agudo grave' em parceria com a cenógrafa Simone Mina

Moldada pela banda formada por Aline Gonçalves (flautas e clarinete), Amanda Camargo (piano), Antonio Loureiro (bateria), Ciro Bellucci (violões) e Fabio Sá (baixo), todos músicos que são multi-instrumentistas, a textura sonora dos arranjos de Maria Beraldo se situa no território da experimentação, mas no limite da acessibilidade pelo público que segue Zélia desde 1994, ano da projeção nacional da cantora.

Maleável, essa textura sonora serve bem tanto à concretude urbana de “Olhos de cimento” (Pedro Luís e Zélia Duncan, 2026), número de pressão quase roqueira, quanto à delicadeza da paisagem solar em que se ambienta “Meu plano” (2026), parceria de Zélia com Ná Ozzetti.

Ficou evidente no álbum “Agudo grave” que nem todas as músicas do repertório autoral estavam à altura da sonoridade arrojada do disco. Essa sensação ainda permanece no show, em uma ou outra música, como “Importante” (Alberto Continentino e Zélia Duncan, 2026), mas em menor grau.

O repertório do álbum cresce no show dirigido pela própria Zélia Duncan em parceria com Simone Mina, criadora do cenário que traduz em imagens – móbiles que parecem cristais aos olhos do público – a fluidez e a leveza do show, ainda que haja certo peso na batida quase marcial da bateria de Antonio Loureiro em “Sentidos” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994), uma das músicas antigas que dão a sensação de que tudo soa novo de novo na voz da cantora.

“Pontes no ar” (Zélia Duncan e Alberto Continentino, 2016), da safra nova, é música erguida no show com arranjo que parece fazer volitar a canção evocativa da atmosfera do Clube da Esquina, sobretudo do cancioneiro pop folk de Lô Borges (1952 – 2025).

Na cena, o gestual teatral da cantora – que já atuou como atriz, cabe lembrar – realça o sentido dos versos de músicas como “E aí, IA?” (2026), outra das três parcerias de Zélia Duncan com Alberto Continentino que fazem parte do repertório do álbum “Agudo grave”.

Zélia Duncan apresenta o show 'Agudo grave' ao público carioca na casa Vivo Rio, na noite de sábado, 25 de setembro

Outro parceiro de Zélia no álbum “Agudo grave”, Lenine injetou vitalidade no show ao entrar em cena para cantar com a anfitriã “Maravilha disforme” (2026) e uma canção de lavra solitária, “Meu xamego” (2025), antes de voltar para o bis para se juntar a Zélia e a Maria Beraldo na viagem refrescante pelo reggae “Nos lençóis desse reggae” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994).

Novas ou antigas, como a sempre aliciante “Enquanto durmo” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1996), as músicas se harmonizam na cena do show “Agudo grave”, quebrando a barreira do tempo e sinalizando que o tempo de Zélia Duncan é hoje.

“Calmo” (2026), parceria da artista com Zeca Baleiro, é cantada em clima de intimidade, com Zélia sentada na beira do palco, próxima da plateia. “Capitu” (Luiz Tatit, 1999) – música que Ná Ozzetti lançou no álbum “Estopim” (1999) e que Zélia Duncan tomou para si em gravação feita para o álbum “Eu me transformo em outras” (2004) – navegou poderosa pela ressaca dos mares do novo arranjo.

“Matagal” (2024), canção em inglês composta por Maria Beraldo e lançada pela autora há dois anos em feat com Zélia, se afinou com o tom inusual dos arranjos e, nesse clima, é claro que caberia música de Itamar Assumpção (1949 – 2023), compositor de obra vanguardista abordada por Zélia Duncan com assiduidade e devoção há 30 anos. “Tua boca” (Itamar Assumpção, 1993) é sugada pela cantora no show “Agudo grave” de forma sedutora.

Zélia Duncan (à esquerda) canta com Maria Beraldo, diretora musical do show 'Agudo grave', na apresentação da casa Vivo Rio

A propósito, as incursões feitas por Zélia Duncan em território alheio são todas frutíferas. Pérola do aclamado álbum “Blue” (1971), obra-prima da discografia da cantora e compositora canadense Joni Mitchell, norte da estrada folk percorrida por Zélia, a canção “All I want” refaz o convite à dança, à liberdade e ao risco de amar.

“Pan y leche” (1995), canção em português (com um ou outro verso em espanhol) de Maurício Pereira, reforçou a busca da artista por felicidade e por seguir em frente em movimento progressista afinado com a estética do show, no qual a militante Zélia também marca posição política.

E, se a vida é sonho, a lembrança sagaz de “Sonho impossível” (“The impossible dream” – Joe Darion e Mitch Leigh, 1965, em versão em português de Chico Buarque e Ruy Guerra, 1972) – acoplada em medley com “Que tal o impossível?” (1988), música de Itamar Assumpção – arrebata no arremate do show.

E o fato é que, sim, sob a revigorante direção musical de Maria Beraldo, Zélia Duncan faz brotar uma flor do impossível chão do show “Agudo grave”.

Zélia Duncan (à direita) canta 'Nos lençóis desse reggae' com Maria Beraldo e Lenine em número feito no bis da estreia carioca do show 'Agudo grave'

♪ Eis as 24 músicas do roteiro seguido por Zélia Duncan em 25 de setembro de 2026 na estreia carioca do show “Agudo grave” na casa Vivo Rio, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

1. “Agudo grave” (Lucina e Zélia Duncan, 2026)

2. “Meu plano” (Ná Ozzetti e Zélia Duncan, 2026)

3. “Me revelar” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 2001)

4. “Pontes no ar” (Alberto Continentino e Zélia Duncan, 2026)

5. “Importante” (Alberto Continentino e Zélia Duncan, 2026)

6. “E aí, IA” (Alberto Continentino e Zélia Duncan, 2026)

7. “Sentidos” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994)

8. “Capitu” (Luiz Tatit, 1999)

9. “Calmo” (Zeca Baleiro e Zélia Duncan, 2026)

10. “Resolvidinho” (Juliano Holanda e Zélia Duncan, 2026)

11. “Voz” (Maria Beraldo e Zélia Duncan, 2026) – com Maria Beraldo

12. “Matagal” (Maria Beraldo, 2024) – com Maria Beraldo

13. “Tua boca” (Itamar Assumpção, 1993) – com Maria Beraldo

14. “Maravilha disforme” (Lenine e Zélia Duncan, 2026) – com Lenine

15. “Meu xamego” (Lenine, 2025) – com Lenine

16. “All I want” (Joni Mitchell, 1971)

17. “Enquanto durmo” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1996)

18. “Catedral” (“Cathedral song” – Tanita Tikaran, 1988, em versão em português de Christiaan Oyens, 1994) – com Maria Beraldo no clarone

19. “Olhos de cimento” (Pedro Luís e Zélia Duncan, 2026)

20. “Pan y leche” (Maurício Pereira, 1995)

21. “Não vá ainda” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994)

22. “Sonho impossível” (“The impossible dream” – Joe Darion e Mitch Leigh, 1965, em versão em português de Chico Buarque e Ruy Guerra, 1972) /

23. “Que tal o impossível?” (Itamar Assumpção, 1988)

24. “Nos lençóis desse reggae” (Christiaan Oyens e Zélia Duncan, 1994)

Zélia Duncan alinha 24 músicas de diferentes épocas e parceiros no roteiro predominantemente autoral do show 'Agudo grave'

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