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Quanto custa sonhar com uma vaga na universidade? Estudantes relatam quanto investem para se preparar para o Enem 2026

Marcelo Soares, estudante da Paraíba, estuda para o Enem 2026 e pretende cursar Medicina ou Geografia.

G1 — Brasil · 2026-09-27T10:43:52.000Z

Marcelo Soares, estudante da Paraíba, estuda para o Enem 2026 e pretende cursar Medicina ou Geografia.

Arquivo Pessoal / Marcelo Soares

Para chegar à universidade, os estudantes não começam do mesmo ponto. Enquanto um deles se prepara para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) sem gastar dinheiro algum, há quem conte com mais de R$ 1,4 mil mensais destinado apenas para os estudos. As diferenças aparecem não apenas no valor destinado à preparação, mas também no tempo disponível e na necessidade de conciliar escola, trabalho e estudos.

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Para compreender os valores e o tempo investidos no acesso ao ensino superior, o g1 ouviu três estudantes paraibanos com diferentes realidades socioeconômicas que tentam uma vaga na universidade.

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Preparação gratuita e conciliação com o trabalho

Marcelo Soares, estudante da Paraíba, estuda para o Enem 2026 e pretende cursar Medicina ou Geografia.

Arquivo pessoal / Marcelo Soares

Marcelo Soares, de 18 anos, passa o dia entre trabalho e escola. Aluno do 3º ano do ensino médio de uma escola pública de João Pessoa, ele trabalha pela manhã na borracharia da família, fazendo reparos em pneus de carros e motos, e à tarde é reservada para os estudos na escola. À noite, começa o segundo momento de estudos do dia, seguindo um cronograma com todas as disciplinas cobradas na prova.

“Eu acordo às 5h da manhã para ir ao trabalho e vou dormir às 22h depois de um dia cansativo de trabalho e estudo. É árduo, mas o importante é saber as limitações e perceber que nem tudo se conserva na ideia de ‘eu tenho que estudar tudo de uma vez’”, afirma Marcelo.

O investimento de Marcelo nos estudos é de R$ 0 por mês. A escolha está ligada à própria realidade financeira: ele ajuda no pagamento de algumas contas de casa e prefere guardar o dinheiro que consegue juntar para outros planos. Por isso, em vez de cursinho, apostilas ou plataformas pagas, recorre principalmente a conteúdos gratuitos disponíveis na internet.

“Não gasto nada, todas as fontes didáticas que eu uso são gratuitas. Tenho o sonho de estudar fora e para isso preciso ter capital guardado para as coisas que estão por vir”, conta.

No entanto, a decisão de não gastar com materiais também aparece nas pequenas escolhas do dia a dia. Marcelo conta que, quando tem vontade de comprar um livro, por exemplo, precisa considerar outras despesas e lembra que parte do dinheiro também ajuda no pagamento de contas de casa. Por isso, mesmo quando encontra algo que gostaria de ter para os estudos, nem sempre a compra cabe no orçamento.

“Às vezes quero comprar um livro, mas decido me centrar e não gastar o valor que eu preciso para o material desejado. Eu ajudo financeiramente [em casa] pangando algumas contas do mês. Sempre aparece algo novo que eu gosto, tipo anime, cartas, livros, entretanto consigo controlar meus desejos de consumo ”, diz o estudante.

Sem recursos para ampliar o investimento financeiro, Marcelo usa o tempo que consegue encontrar para estudar. O ônibus entre a escola e a casa, por exemplo, virou parte da preparação. No trajeto, ele lê livros e redações que podem ajudar na prova e aproveita um intervalo que já faria parte da rotina para continuar os estudos.

“O ônibus, indo e voltando da escola, tem sido meu amigo de leitura para repertório sociocultural para o Enem. Leio as grandes obras brasileiras e também redações nota mil”.

Marcelo pretende cursar Medicina ou Geografia. Medicina está entre os objetivos dele desde a infância e segue como uma das opções para a graduação.

“Tenho em mim que quero fazer Medicina ou geografia. Medicina me conquista desde os meus dez anos de idade. Desde o meu 1⁰ ano do ensino médio, e sim, sinto que tenho chances de passar pra alguns desses cursos”, finaliza.

Preparação de aluno de escola particular chega a R$ 1,4 mil por mês

O aluno do 3º ano do ensino médio de uma escola particular de João Pessoa, Miguel Galindo Taurino, de 17 anos, tem cerca de R$ 1,4 mil por mês investidos pela família na preparação para o exame. Segundo ele, o valor não inclui os materiais comprados no começo do ano e algumas apostilas de apoio.

Fora da escola, Miguel estuda em casa. A rotina é organizada em blocos, com pausas ao longo do dia, e a resolução de questões ocupa uma parte importante da preparação.

“Procuro equilibrar meu tempo sem cansar muito minha mente, porque, quando desgasto muito minha mente estudando, não consigo absorver o conteúdo direito. Então, procuro dividir o estudo em alguns ‘blocos’, com algumas pausas para ir descansando. Coloco em primeiro lugar resolver questões, que é o que mais me ajuda a me sentir seguro no Enem, estudando todo dia, menos domingo, que é meu descanso”, explica.

Além do valor destinado aos estudos, Miguel também tem mais tempo disponível para a preparação. Nesta reta final da escola, ele decidiu deixar o trabalho de lado porque avaliou que seria mais difícil conciliar as duas atividades sem comprometer os estudos.

“Tenho uma escrivaninha no meu quarto para conseguir estudar melhor. No momento atual, preferi priorizar os estudos nesse período do 3º ano em detrimento de trabalhar, porque senti que seria mais difícil conseguir um equilíbrio entre essas duas questões sem me prejudicar ou me cansar demais. A sensação de ter mais tempo diminui bastante minha ansiedade em relação à prova e me ajuda a estudar com muito mais calma e tranquilidade”, explicou.

O objetivo do estudante é cursar Psicologia. A preparação mais específica para a graduação começou no início deste ano, quando Miguel passou a analisar os últimos anos de ingresso no curso e a organizar os estudos a partir do conteúdo cobrado.

“Quero cursar Psicologia. Escolhi porque vejo que é uma área cada vez mais em expansão e porque sinto que esse trabalho de cuidado e acompanhamento combina com minha personalidade. Comecei a me preparar mais seriamente no começo deste ano, analisando os últimos anos de ingresso de pessoas nesse curso e, de fato, começando a preparação em relação ao conteúdo”, comenta.

Para Miguel, o investimento feito pela família também está presente quando ele pensa no significado de conseguir uma vaga na universidade. A aprovação, segundo ele, representaria o reconhecimento desse apoio e a possibilidade de iniciar a própria trajetória acadêmica.

“Acredito que [a aprovação] represente um sonho de apresentar esse orgulho para minha família, que acredita no meu potencial e que investiu tanto em mim, além da própria realização pessoal e da felicidade em poder adentrar no ambiente acadêmico e trilhar meu próprio caminho. É um período muito difícil de lidar internamente e demanda muita disciplina e determinação, mas, no final, acaba valendo a pena”, finalizou.

R$ 60 por mês para plataforma de estudos

Arquivo pessoal / Sayonara Vitória

Já Sayonara Vitória, de 17 anos, também divide a rotina entre escola e trabalho, mas consegue reservar parte do que recebe para a preparação para o vestibular. Ela estuda em uma escola pública, também na capital, e trabalha há um ano na área de estética e beleza, onde entrou depois de fazer um curso técnico ainda durante a escola e receber uma oportunidade de trabalho.

“Trabalho na área da estética e beleza. Iniciei há 1 ano. Decidi que queria fazer um curso técnico ainda na escola para a área que eu gostaria de seguir futuramente e lá ganhei uma oportunidade de trabalho. Foi quando decidi entrar no mercado de trabalho. Com rotina e organização, não deixo as responsabilidades do trabalho ultrapassarem as obrigações de estudo”, disse.

Ao g1, Sayonara afirmou que o gasto mensal com os estudos é de R$ 60, valor pago por uma plataforma de preparação. Fora dela, a estudante também utiliza aplicativos com videoaulas para revisar os conteúdos. Como não precisa ajudar financeiramente em casa, o dinheiro que recebe pelo trabalho é destinado ao próprio uso.

“Todo dinheiro que recebo com base no meu trabalho vão para uso próprio”, explica.

Mesmo com a plataforma paga, a preparação não ocupa apenas parte do orçamento. Ela também precisa caber em uma rotina dividida entre trabalho e escola.

Sayonara estuda de segunda a sábado e, pela manhã, quando não tem atendimento no trabalho, aproveita para revisar os conteúdos do dia anterior. À tarde, fica na escola e também acompanha os assuntos relacionados ao Enem.

“Chego em casa por volta das 19h. Após fazer os meus deveres em casa, começo a estudar com base no meu cronograma de aprendizado, tendo duração de 3 horas. Acordo às 8h, na maioria das vezes. Quando minha rotina fluí normalmente, consigo estudar 1 hora pela manhã e 3 horas a noite, porém quando estou muito cansada costumo estudar 2 horas”, afirma.

O plano para depois do ensino médio é cursar Biomedicina e continuar os estudos na área de estética. Para Sayonara, conseguir uma vaga na universidade representa uma mudança que também envolve a família.

“Quero dar continuidade ao meus estudos na estética e graduação de biomedicina. Gosto muito de laboratórios. É a oportunidade de ter uma vida melhor, crescendo, evoluindo e transformando a minha vida e a da minha família através dos estudos”, comenta.

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