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Levantamento do g1 com base nas candidaturas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nestas eleições 2026 revela que ao menos 39 candidatos incorporaram ao nome de urna uma menção a outra pessoa. Dezesseis deles fazem isso pela…
G1 — Brasil · 2026-09-30T03:00:00.000Z
Levantamento do g1 com base nas candidaturas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nestas eleições 2026 revela que ao menos 39 candidatos incorporaram ao nome de urna uma menção a outra pessoa. Dezesseis deles fazem isso pela primeira vez, enquanto os demais já usaram essa estratégia de identificação em eleições passadas.
Segundo a cientista política Danusa Marques, professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL/UnB), o fenômeno mostra a tentativa de se associar a alguém já reconhecido socialmente. De acordo com os dados, esse alguém é, na maioria das vezes, um parente homem do candidato ou candidata.
Dos 39 candidatos, 32 mencionam familiares e 2 fazem alusão a aliados políticos. Em cinco casos, não foi possível confirmar a relação entre o candidato e a pessoa citada.
Entre os 32 casos de parentesco identificados, 14 candidatos fazem menção aos pais; 11 candidatas, aos maridos; 3, aos filhos; e 3, às mães. Em um caso, não foi possível determinar se o nome de urna faz referência ao pai ou à mãe.
Os cinco casos em que o vínculo não pôde ser confirmado têm características de possíveis patronímicos — nomes formados a partir da referência a um antepassado do candidato.
Homens são maioria dos referenciados por candidatos.
Kayan Albertin / Arte g1
Maioria dos referenciados são políticos
Entre as 38 pessoas identificadas pelo g1 como referenciadas pelos candidatos, 20 ocupam ou já ocuparam cargos políticos. Outros quatro nomes usados por candidatos são de comerciantes, dois são de crianças com necessidades de cuidados especiais, dois são patriarcas de famílias tradicionais, um é de uma liderança local e outro é de um jogador de futebol. Em oito casos, não foi possível confirmar a atividade ou trajetória da pessoa mencionada.
Para analisar o fenômeno, Marques diferencia famílias políticas de dinastias políticas. A família política é quando alguém tem um parente que ocupa cargo público, seja eletivo ou de confiança. Já a dinastia política é caracterizada por famílias que têm várias gerações ocupando posições de poder, principalmente em cargos eletivos.
O que há em comum em todos os candidatos identificados no levantamento, observa Marques, é a tentativa de se associar a alguém já reconhecido. “O objetivo é se vincular a quem tem posição relevante naquele contexto, seja no estado, na cidade ou em uma comunidade”, disse a especialista.
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Aprendizado político de berço
Segundo Marques, a escolha de carregar outra pessoa no nome de urna deixa claro o acesso que esses candidatos têm a uma rede de contatos e de aprendizado político.
"Existe um capital político, e não necessariamente é o sobrenome, ou só a referência explícita a alguém. Essas pessoas aprenderam as regras da política, aprenderam como se portar, o que fazer e quais são as estratégias possíveis", disse a especialista.
Ela ressalta ainda que o uso do nome na urna é apenas um recorte do universo das famílias políticas. “Além desses candidatos, existem muitos outros que usam apenas o sobrenome que já possuem, por fazerem parte de uma família tradicional na política”, disse a especialista.
Imagem urna eletrônica
Sergipe é o estado em que mais candidatos incorporaram nomes de outras pessoas no registro de candidatura, segundo o levantamento do g1. São nove. A Bahia aparece em segundo lugar como estado onde o fenômeno mais acontece, com seis candidatos identificados.
Em Pernambuco, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, o g1 encontrou quatro candidatos em cada estado. Já a Paraíba, o Ceará e Rondônia têm dois candidatos cada, enquanto o Distrito Federal e os estados de Tocantins, Alagoas, Maranhão, São Paulo e Goiás têm um candidato cada.
34 candidatos fazem referência a homens; só 3 referenciam mulheres
As diferenças de gênero aparecem nos nomes escolhidos para a urna por esse grupo de candidatos. Trinta e quatro deles fazem referência a homens e apenas três, a mulheres, mais especificamente às mães. Em dois casos, não foi possível determinar o gênero da pessoa mencionada.
Para Marques, isso é reflexo da predominância masculina nos espaços de poder. “As mulheres nunca chegaram a mais de 20% de cadeiras na Câmara e no Senado. Então, se alguém quer se apoiar num nome com proeminência política, muito provavelmente vai ser um homem”, disse a pesquisadora.
O Brasil aparece em 133º lugar no mundo no ranking de participação de mulheres nos parlamentos nacionais, elaborado pela Inter-Parliamentary Union (IPU). Na América Latina, está entre os países com pior representação feminina no Legislativo.
"É importante não naturalizar o fato de a maior parte dos espaços de poder serem ocupados por homens no Brasil. Isso não é algo comum, não é um padrão mundial, é algo do Brasil e mostra o nosso atraso em termos de democratização", disse a pesquisadora.
O levantamento expõe outro aspecto da política para as mulheres. Ao menos 11 candidatas usam o nome do marido na urna, e 10 desses homens ocupam ou já ocuparam cargos políticos; em um caso, não foi possível confirmar a trajetória da pessoa mencionada.
Das 11 mulheres, 10 recorreram às preposições “de” ou “do”, construções que remetem à ideia de posse. Segundo Marques, a referência aos maridos é um reforço do padrão patriarcal na política.
Filhos também viram referência na urna
Nem sempre o nome que o candidato incorpora vem de uma geração anterior ou do marido. Em dois casos, as mães escolheram se identificar na urna pelos nomes dos próprios filhos. Em outro, foi um pai que fez o mesmo.
Marques avalia que candidatas constroem suas trajetórias políticas a partir da ideia do cuidado, especificamente como mães. "É uma militância. É diferente de se apoiar em outras pessoas que já têm carreiras políticas”, disse a pesquisadora.
Já o pai, que usa o nome do filho jogador de futebol, segue outra lógica. “É alguém que está tentando apelar para a popularidade de uma pessoa famosa”, avalia Marques.